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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Contra Especulações Metafísicas


Certa vez, na floresta Simsapa do Kosambi (perto de Allahabad), pegando algumas folhas na mão, perguntou aos discípulos:

Que pensais, bhikkhus? Quais as mais numerosas? Essas poucas folhas na minha mio, ou as que estão na floresta?

Senhor, certamente as folhas da floresta são muito mais numerosas!

Da mesma forma, bhikkhus, do que sei não disse tudo e o que não divulguei é muito mais. E por que eu não lhes disse? Porque isto não é útil e não conduz ao Nirvana. (Samyutta-Nikaya.)

O Mestre comparava o número das coisas por ele ensinadas ao número das folhas de uma só árvore, e o número das coisas que lhe foram reveladas ao sem-número imenso das folhas de toda a floresta. Da mesma forma, Buda não discutia questões metafísicas, pois são puramente especulativas e só criam problemas imaginários. Ele as considerava "um deserto de opiniões".

Malunkyaputra, um de seus discípulos, não se conformando com essa atitude, fez ao Mestre as clássicas perguntas sobre problemas metafísicos, entre as quais as seguintes:

Senhor, quando estava meditando, veio-me este pensamento: o universo é eterno ou não é eterno? O universo é finito ou infinito? A alma é uma coisa e o corpo outra coisa? Existe o após a morte ou não existe o após a morte, ou ambas as coisas simultaneamente existem ou não após a morte? O Sublime não me explicou esses problemas; se o Senhor sabe que o universo é eterno, explique-me, mas se não sabe, seja franco em dizer: "Não sei, ou não vejo." [A resposta dada é de grande utilidade para muitos, que até hoje perdem um tempo precioso em questões metafísicas dessa natureza, perturbando inutilmente a paz de suas mentes.]

Disse eu alguma vez: "Vem, Malunkyaputra, leva uma vida pura sob minha direção, que eu te explicarei todas essas questões?" Ou você mesmo me perguntou: "Se eu levar uma vida pura sob sua direção, terei as respostas às minhas perguntas?"

Não, Senhor!

Malunkyaputra, se alguém disser: "Não levarei uma vida santa sob a direção do Sublime, até que ele me elucide essas questões", morrerá certamente antes de receber a resposta desejada do Tathagata.

Prosseguindo, Buda deu o seguinte exemplo: se um indivíduo, ferido por uma flecha envenenada, fosse levado por seus amigos e parentes a um cirurgião e dissesse: "Não deixarei extrair esta flecha antes de saber quem a disparou, se um ksatrya [casta dos guerreiros], ou um brahmana [casta dos sacerdotes], um vaisya [casta de mercadores] ou sudra [casta inferior dos camponeses], qual seu nome, qual o nome de sua família, se é alto, baixo ou de estatura mediana, qual a cor de sua tez, de que aldeia ou cidade veio. Não permitirei extrair esta flecha antes de saber com que espécie de arco foi disparada, antes de saber que corda foi empregada nesse arco, antes de saber que penas foram utilizadas na flecha, antes de saber de que material foi feita a ponta da flecha", como terminaria isto, monges? Esse homem morreria certamente sem saber todas essas coisas. Assim também, Malunkyaputra, quem disser: "Não levarei a vida pura sob a direção do Sublime até que ele me explique se o universo é ou não eterno etc., etc — certamente morrerá sem que o Mestre lhe tenha explicado essas questões.

Buda explicou a Malunkyaputra que a vida espiritual não depende de opiniões metafísicas. Qualquer que seja a opinião sobre esses problemas, existe sempre o nascimento, a velhice, a decrepitude, a morte, a desgraça, as lamentações, a dor, a angústia. — "Logo, declaro: a cessação de tudo isto é o Nirvana ainda nesta vida."

Por conseguinte, Malunkyaputra, considere explicado o que expliquei, e o que não expliquei, como não-explicado. Não esclareci se o universo é eterno, ou não é, etc., etc., porque não é útil e não está fundamentalmente relacionado com a vida espiritual, não conduzindo ao desapego, à cessação, à tranqüilidade, à penetração profunda, à realização, ao Nirvana. Estes são os motivos pelos quais não falei. Que foi que expliquei? Expliquei a existência do sofrimento, o aparecimento ou origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que conduz à cessação do sofrimento. E por que expliquei isto? Porque é útil e está fundamentalmente relacionado à vida espiritual que conduz ao desapego, à cessação, à tranqüilidade, à penetração profunda, à libertação, ao Nirvana. 1

Buda não ensinava o objeto do Conhecimento, mas os meios para chegar a ele. Só a Iluminação poderia responder as perguntas; os ensinamentos de Gautama Buda, como vimos e veremos no decorrer deste estudo, são pura ciência, moral, psicologia e filosofia de vida, e nada têm a ver com conceitos religiosos. É uma doutrina que leva o indivíduo à Correta Compreensão pela análise e meditação.



Texto extraído do livro
"Budismo: Psicologia do Autoconhecimento"
de Georges da Silva e Rita Homenko
.

Fonte: http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=502

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Meditação zazen



Por: Natália Dourado
Mãos em mudra cósmico, respiração lenta e postura de lótus compõem a prática

Aprenda esta técnica do Zen-budismo e ganhe paz e tranquilidade

Relaxar e não pensar em nada. Este é o princípio mais importante da meditação zazen, que significa literalmente sentar zen. Esta meditação não possui um objeto de reflexão como, por exemplo, meditar sobre a vida. O fundamental é tirar qualquer pensamento da mente e alcançar um estado meditativo profundo.

Segundo Francisco Handa, monge do templo Busshinji, em São Paulo, SP, a meditação zazen não tem um objetivo. “Não se ganha nada fazendo esta meditação. Porém, ela funciona para iluminar o corpo e a mente”, afirma ele. “Além disso, se vier algum pensamento em sua mente, não importa se bom ou ruim, devemos evitar dar atenção a ele.”

Também conhecida como meditação vazia, o zazen já era praticado há mais de 2 mil e 500 anos na Índia. O monge conta que todas as tradições budistas realizavam a prática do zazen, a qual foi enaltecida pelo 28º patriarca budista Bodhidharma. Ele foi o responsável em levar este tipo de meditação da Índia para a China, mais precisamente para o Mosteiro de Shaolin, onde se tornou um treinamento comum entre os monges. 

Mãos em mudra cósmico, respiração lenta e postura de lótus compõem a prática zazen, que pode durar minutos ou até mesmo horas, exigindo bastante resistência física. “Quanto mais meditar, mais tempo conseguirá ficar na postura sem incômodo. No começo é difícil manter a coluna ereta e não se movimentar, mas depois nos acostumamos”, explica o monge Handa, que ressalta o fato de não poder se movimentar de forma alguma durante a meditação. “Se a pessoa se mexe, ela acaba movimentando o corpo e a mente, o que prejudica a prática do zazen.” Portanto, aconselha que os iniciantes na prática procurem um templo e a ajuda de um professor que possa auxiliá-los na postura e na atitude mental adotada durante a meditação. 

Saiba como praticar Zazen

Por Monja Coen, colunista do site e missionária oficial da tradição Soto Shu – Zen Budismo com sede no Japão.

Procure um local tranquilo, nem claro ou escuro demais, não muito quente nem frio. 

Há várias maneiras de sentar-se: posição das bermudas, meia lótus, lótus completa, banquinho, cadeira. Em qualquer uma delas é importante que a coluna vertebral seja mantida ereta. O queixo um pouco para baixo, de forma que a região cervical fique reta. Verifique se seu corpo está centrado, movendo da esquerda para a direita, como um pêndulo – de movimentos largos a movimentos menores e pare exatamente em seu próprio centro de equilíbrio.

Perceba se as orelhas ficam em linha com os ombros e o nariz em linha com o umbigo. Esvazie os pulmões, soltando todo o ar profundamente pela boca, aproximadamente três vezes. Relaxe qualquer parte do corpo onde sinta tensão. Em seguida, coloque as mãos no mudra cósmico (mão direita embaixo, com a palma voltada para cima e a costa dos dedos da mão esquerda repousando na palma dos dedos da direita, mantendo a mão esquerda com a palma para cima. Encoste levemente os dois polegares, como se houvesse uma finíssima folha de seda entre eles). Perceba que suas mãos estarão formando uma elipse, assim como os planetas em torno do Sol – o cosmos em suas mãos.

Em seguida coloque a ponta da língua no palato superior, tocando de leve atrás dos dentes frontais. Isto cria um canal de comunicação de energia ao mesmo tempo em que evita muita salivação.

Mantenha os olhos entreabertos, pousados cerca de um metro e meio de distância num ângulo de 45 graus.

Assim, sem pensar e sem não-pensar, sente-se calmamente por alguns minutos. Alguns ficam em zazen por 40 minutos, outros por 30 ou mesmo 20 minutos. De qualquer maneira adapte à sua realidade. Para quem nunca praticou nenhuma forma de meditação mesmo cinco minutos pode ser um bom tempo. Não tenha pressa em querer sentar por longos períodos. 

Tendo assim assentado corpo e mente, perceba sua respiração. Sinta se está sendo abdominal (ao inalar o abdome se expande ao exalar se contrai) ou torácica (a caixa torácica se expande e se contrai). Perceba seus batimentos cardíacos. Ouça todos os sons, próximos e distantes. Sinta as fragrâncias da sala, do local (pode ser ao ar livre). Perceba o ar, sua textura, sua temperatura. A luz e a sombra que se formam onde seus olhos estão pousados são também percebidas. Verifique sua postura, a posição das mãos, da coluna, da língua e oxigene áreas de tensão. Perceba seus pensamentos. Como se formam e como desaparecem. Veja se pensa em formas, palavras, música, cores, imagens. Qualquer emoção que surja deve ser notada. Assim como seu término. O mesmo para memórias. Entretanto, não fique pensando apenas, nem apenas percebendo, pois isto ainda está no plano da dualidade. Torne-se um com o uno sendo a respiração, a postura correta e a vida do universo em constante fluir. 

Um momento de zazen é um momento de Buda.

fonte: Yoga journal